quarta-feira, 9 de março de 2016

Medusa III




Casamos.

Medusa e eu nos casamos. Isso significa que interpretei corretamente a resposta do pedido que havia feito há tanto tempo. Sim, leitor, agora já estamos juntos há nove anos. Nesse tempo muita coisa aconteceu, nossa vida foi mudando, nossos pensamentos também, como seria de se esperar. Mas não se engane com a banalidade dos relacionamentos, pois alguns deles nada tem de banal. 

Chega um momento na nossa vida (eles chegam várias vezes, em vários momentos, por sinal) que sentimos que falta algo. Mas o que poderia estar faltando? Tinha a casa, a mulher e o emprego dos meus sonhos. O que mais um homem poderia querer? Eu estava prestes a descobrir e não foi tão fácil assim de aceitar isso. O que me faltava. Às vezes a gente demora para cair na realidade, eu apenas não poderia demorar demais. Esse tipo de coisa pode causar estragos que marcam as pessoas e podem deixar cicatrizes, bem tênues e tímidas, no fundo da alma, se é que ela existe. Acho que no fundo tudo isso é medo. Mas vamos por partes. 


Eu e Medusa estávamos na nossa terceira lua de mel quando minha vida mudou completamente (de novo). Era uma terça-feira ensolarada, o sol castigava e iríamos para a piscina do hotel bem cedinho. Assim que ela se levantou e me encarou com os olhos do dia, senti meu corpo estremecer: algo estava diferente. A minha cara de espanto me denunciou. 


- O que foi? Aconteceu alguma coisa? – ela me perguntou. 

- Tem alguma coisa diferente em você. O que é? 

- Não tem nada de diferente em mim – disse, desviando o olhar. 

- Tem sim, é o seu olhar – a segui e a encarei outra vez. Realmente seu olhar estava diferente. Mas eu não conseguia captar o significado disso. 
- Acho que você está ficando louco. Vamos logo para a piscina, não aguento de tanto calor. 

Fomos nadar e se eu não estivesse tão absorto em meus pensamentos, teria percebido a pequena protuberância em sua barriga. 

Depois de voltar para casa, ao fim da lua de mel, Medusa teve que ir resolver certas coisas no trabalho e deixou um embrulho em cima da cama. Fui percebê-lo só depois que ela saiu. Poderia dizer que me contive, mas seria mentira. Pois logo corri e abri o presente, afinal, era meu aniversário. Dentro da caixa havia um bilhete. O transcrevo logo abaixo: 


Quisera eu dar o mais belo dos presentes 

Ao mais belo esposo 

Mas as estrelas no céu não podemos alcançar 

Então você ganhou algo que pode tocar 

Mas não deixa de ser um presente dos céus 
Só não desperte a cólera dos deuses 
Que hão de invejar presente tão belo como o seu 


Sem saber exatamente por quê, aquele presente me atingiu de tal forma que caí. Sorte que a cama estava logo ali. Quando a Medusa voltou do trabalho, eu estava na mesa, com o bilhete em mãos e talvez com a aparência um pouco descontrolada.

- O que significa isso? 

- O que tem de diferente em mim? – disse ela, se sentando ao meu lado. E então, depois de encarar novamente aqueles olhos, eu soube. Foi como um golpe, daqueles que são tão de repente, que a gente perde o ar, a fala e só vai saber o que aconteceu bem depois. 

Eu tive a sorte de saber medir bem minhas palavras, mesmo quando não soube como reagir. Fiquei abobalhado e custei a digerir a ideia. Mas sabia que qualquer palavra errada poderia causar um estrago sem volta. Não cometi esse erro. Confesso que no último trimestre eu estava mais ansioso que ela. Já havia me acostumado com a ideia, mas não sabia nem de longe o que me aguardava. Tamanha responsabilidade me assustava. Mas ela estava lá comigo, forte e impassível como uma rocha. E se ela estava tão certa de si, por que deveria continuar tão amedrontado? 

Nasceu num sábado, ao nascer do sol, a minha pequena Lúcia. O choro era forte, choro de vida. Ela cabia no meu braço, de tão pequena era. O milagre do nascimento era assustador, mas quando a pequena Lúcia abriu os olhos e me encarou com aqueles olhos de sol, todo o temor caiu por terra e em seu lugar veio a certeza, a certeza de que iria fazer de tudo pela felicidade daquela criaturinha, que mal havia nascido e já a amava mais que tudo. Nunca tamanho amor havia habitado meu ser. Eu nasci de novo, comecei a aprender a engatinhar, a andar, a falar, tudo de novo, junto com a Lúcia. Ela quem me ensinava tudo isso, e eu que babava, não ela. Ela me ensinou que devemos dar um passinho de cada vez e que não faz mal cair de vez em quando, mas é melhor quando temos alguém para nos segurar, caso isso aconteça. Me ensinou que o amor mais puro é sentido há quilômetros de distância e que um olhar às vezes basta para dizer tudo o que é preciso. 


Poderia escrever um livro descrevendo tudo o que aprendi com essa garotinha, mas esse não é o objetivo. Até hoje não consigo entender como a minha amada Medusa pode me dar um presente tão maravilhoso como a Lúcia. De um amor tão intenso, verdadeiro e profundo, nasceu a segunda razão da minha vida e o poder desse amor puro é tão forte... 

(...) 

Era meu aniversário outra vez. Lúcia já corria sem parar, o céu era o limite. Então vi meu presente em cima da cama, uma outra vez. Dessa vez hesitei. Me perdi nas memórias. Medusa entrou no quarto e me tomou pelas mãos. Como amo aquela mulher! Como dizia Bentinho “Mais mulher do que eu era homem”. 

- Te amo! 

- Te amo! Não vai abrir o seu presente? 

- Já tenho os melhores presentes do mundo, o que mais posso querer? – respondi. Mas o olhar que ela me devolveu me encheu de pânico, confesso. Ao abrir o embrulho o que encontrei? DOIS bilhetes. DOIS. 
- DOIS? 
- Dois. 

(...) 

Caro leitor, se você é um leitor usual, certamente espera que essa história chegue a um fim. Sinto decepcioná-lo. Quem disse que devemos dar um fim a todas as histórias? Elas nunca acabam e não sabemos dizer ao certo quando começam. 

Por hora basta saberem que tudo isso, toda essa felicidade só foi possível porque um dia dei um passo em direção ao meu objetivo, à minha Medusa. Nada é garantido, nada é certo. Tudo é construído dia a dia, aos poucos. E se algo fica ruim, levamos ao chão e começamos de novo. Não é fácil, nada é. Será mesmo ou isso é algo que foi tão implantado culturalmente que não conseguimos pensar o contrário? Seja como for o futuro é feito a cada dia. Pode ser um tormento ou uma dádiva. O que decide isso são as nossas ações. Ficar apenas ansiando, pensando, desejando não adianta nada, se não dermos o primeiro passa para conquistarmos nosso objetivo. 

Como eu disse uma vez, a felicidade absoluta não existe, mas vivemos para tentar alcançar a sombra do que ela poderia ser. Creio que tenho feito bem o meu trabalho, não me arrependo das coisas que fiz, as faria de novo. É certo que não fui nenhum revolucionário que mudou a lei e a política. Nem fui um grande cientista que beneficiou o mundo com suas descobertas. Mas fui um homem que amou uma mulher. Não mudei o mundo inteiro com isso, mas sei que toquei muitas pessoas. E cada uma dessas pessoas tocou outra e mais outra e assim sucessivamente. Não mudei o mundo inteiro, nem tive essa vontade. Mas o meu amor fez com que eu quisesse que o mundo fosse um lugar melhor para que as pessoas que eu amo fossem felizes. 

Se eu consegui isso, ao menos em parte, não sei dizer. Mas sei que vou continuar tentando enquanto viver. 




P.S.: Medusa, meu amor, te amo! Não tire o olho das crianças! 

Lúcia, pare de esconder os brinquedos dos seus irmãos. 

Fred e Jorge, o papai ama vocês. 
Chego em casa às 19h. 
Abraços, L.


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