quinta-feira, 7 de abril de 2016

(In) Cômoda



Arthur lançava o seu olhar mais desanimador para o seu quarto. Não que isso fosse desanimar o quarto, mas até as mobílias pareciam sem ânimo para serem inanimadas. Quantos livros, discos, itens, objetos... tudo aparentemente normal e propositalmente um pouco fora do lugar. Quem olhava aquilo apenas via objetos comuns à muitas pessoas, mas Arthur infelizmente via mais. Engraçado como é possível depositar em objetos valores sentimentais e até culpas! Que culpa o coitado do CD tem? Muitas, pois Arthur culpou o CD por muitas coisas. É tão tranquilizante quando por um momento achamos que transferimos nossa responsabilidade pelas coisas que nos acontecem a alguém ou algo, que não seja a gente. Ufa! Que alívio!

O CD culpado nada falava, nada fazia, apenas ficava inerte, esperando alguma força agir sobre ele. Nem é possível dizer que ele esperava algo, muito menos isso. Ele apenas era. E enquanto isso Arthur pensava se jogaria fora aquele CD ou não. Se jogasse o CD fora, também teria que jogar as roupas, os livros, os discos e muitos outros itens. Qual seria o critério? Isso era trabalhoso demais, então decidiu que encarar tudo aquilo com desânimo era menos trabalhoso do que decidir quais coisas manter consigo. Então se sentou em um canto menos bagunçado da cama e encarou novamente objeto por objeto. Ao encarar cada objeto, foi se lembrando da culpa que havia concedido a cada um deles.


Àquele filme foi concedida a culpa da felicidade, que em outro momento se tornou melancolia. Melancolia por se lembrar de uma felicidade que não existe mais ou que até mesmo não se é possível dizer se existiu ou até quando durou. Arthur sentira raiva, ódio, proferira palavras violentas aos ventos e às pessoas acerca de sua ira, mas com o tempo (ah! - o tempo!) percebera que aquilo tudo era em vão. Passou. Não se lamenta o fato de se ter caído. Já caiu. Agora é observar o machucado e passar remédio ou não. É como tomar vacina. As pessoas em geral não gostam de tomar vacina. Sofrem por antecipação, sofrem durante, mas não há sofrimento depois. Porque não há porque lamentar a vacina que já tomou, uma vez que a dor passou. O que resta não é a dor, é o dolorido, é a melancolia. E era dolorido que Arthur ficava ao observar todas aquelas coisas e todas as lembranças que elas traziam. E depois de agir como uma criança pirracenta, ele descobriu que de nada adiantava todo aquele alvoroço, todas as palavras de ira, toda a demonstração de raiva e dor. A única pessoa que sente exatamente aquilo que você sente, é você mesmo. Você gritar sua dor para os outros não fará que eles também sintam sua dor. Ainda bem!

Quando mais Arthur olhava, mais lembrava e mais dolorido ficava. Então percebeu que tudo é perspectiva e escolha. Ele estava escolhendo lançar aquele olhar às coisas, mas e se optasse por um novo olhar? O CD era bem bacana, as roupas também e nada mais eram além de CD e roupa. Quantos valores atribuímos às coisas e às pessoas!

(...)

Já com o sorriso no rosto, Arthur arrumou seu quarto. Colocou cada coisa no lugar. Isso mesmo! E a medida que ia colocando as coisas no lugar, também arrumava seus pensamentos e seus sentimentos. Cada coisa em seu devido espaço, em sua devida hora. Até porque a hora de antes não é a hora de agora e nem será a hora de daqui a pouco...

Arthur aprendeu também que só se arruma a bagunça quando ela te incomoda. A bagunça dele, a bagunça das coisas, pensamentos e sentimentos, só foi arrumada porque gerou um incômodo e o incômodo gera mudança. E a mudança gera incômodo! Lidar com o incômodo provocado pela mudança que foi provocada pelo incômodo já é outra história... e até lá talvez Arthur tenha bagunçado seu quarto de novo, com a desculpa de não ter tempo para ajeitar as suas coisas.

Ah... o tempo!

Enquanto Arthur procrastina, o tempo segue constante, assim como o ponto segue reticente. E vamos aprendendo (ou não!) a colocar as coisas no seu devido lugar.


...

22 comentários:

  1. Boa tarde flor, como vai? Gostei bastante do seu texto , me pareceu uma ótima narrativa, sem contar que você escreve super bem. parabéns por essas belas palavras, continue assim <3 beijos e sucesso!

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  2. Esse texto me fez lembrar da minha mae falando do meu quarto! hahaha Sempre acho que está organizado na medida do possível. Encontro tudo, não está terrível, ou seja, tá arrumado! hahaha Adorei o texto, parabéns!

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  3. Adorei o texto! Bem complexo o Arthur rsrsrs, você escreve muito bem, até achei que era um trecho de livro, mas como não tem citação conclui que é seu mesmo.
    Parabéns pelo blog!
    Beijos

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    1. É meu mesmo! No meu blog os textos são de minha autoria! Obrigada!

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  4. Texto incrível ! Muitas vezes somos meio "Arthur" preferimos despositar nossa raiva ou culpa em coisas ou objetos para ter um sentimento de "Alivio" não é mesmo? Amei post, beeijos !!!

    Seguindo aqui já.
    http://laryssamarquesblog.blogspot.com.br/

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    1. Isso acontece e muito viu, Larissa! Obrigada! Também estou seguindo!

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  5. Oie.
    Acho que já comentei em outro post mas vou repetir: 'seu estilo de escrita é muito bom''. Não cansa os olhos. E isso é bom, pois é tão comum encontrar contos que na metade você tem vontade de enfiar dois lápis nos olhos. Está de parabéns. E o Arthur nos ensinou uma coisa... as vezes é preciso arrumar a bagunça, seja ela qual for.
    Beijo

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    1. Obrigadaaaa, Paula! hahaha Que bom que gostou desse texto também!

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  6. Que delicia esse texto! Você escreve muito bem! Eu adoro colecionar frases de textos que leio, e esse tem tantas que gostei! ❤️ Realmente a gente só arruma a bagunça que nos incomoda... às vezes a gente sabe que tá "bagunçado" mas se é algo que dá pra ir levando, a gente vai levando... e não adianta alguém vir e falar pra gente arrumar... só arrumamos mesmo quando nos incomoda

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    1. Que bom, Paola!!! :D e sim, só arrumamos mesmo quando nos incomoda!

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  7. Muito bem escrito, as palavras se combinam perfeitamente, é como uma melodia pra quem lê. Parabéns pelo conto e pelo blog, com certeza vou seguir, e continuar acompanhando!

    Marta Correa
    http://coribeiro.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada, Marta!!! Também estou te seguindo!

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  8. Texto maravilhoso, ótimo para refletir. É preciso arrumar a bagunça existente em nossa vida. Beijinhos

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  9. Que texto profundo. Eu me senti que nem o Arthur um pouco bagunça da. Mas é bom arrumar as bagunça que causamos. Bela escrita. Parabéns e sucesso sempre. Beeijos

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  10. Adorei o texto ♥ Realmente, um dos nossos defeitos é acharmos que podemos culpar outras pessoas e até mesmo objetos por nossa infelicidade. Arrumar o quarto - ou a mente- é realmente um bom modo de conseguir enxergar novas possibilidades.

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    1. Temos esse costume mesmo! De transferir nossa responsabilidade a outras coisas e a outras pessoas. Nada melhor do que assumir nossa responsabilidade e provocar as mudanças necessárias!

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  11. Que texto maravilhoso, me identifiquei demais com o Arthur! Eu sou uma pessoa muito bagunceira, muito mesmo e sempre que estou com raiva eu arrumo a casa toda e é engraçado como isso me distrai. Ameiii demais essa parte: "a hora de antes não é a hora de agora e nem será a hora de daqui a pouco". Parabéns pela escrita, ficou incrível. Bjs

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    1. Que bom que se identificou, Dri!!! Muito obrigada!

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