quinta-feira, 3 de março de 2016

Quando o nosso destino é escrito e o corretor do Word nos atraaphla



Era terça-feira de manhã nebulosa e chuvosa quando a nossa história começou. O nome dele é Josisvaldo. Era adulto por fora, meio calvo por cima e meio largo dos lados. Na verdade, o nome dele era Josivaldo, mas quando a mãe dele foi tentar escrever o nome no Word, o corretor ortográfico piscou irritantemente aquele sublinhado vermelho. Então ela tirou um s e ficou Josivaldo. Então a mãe e o corretor ortográfico do Word ficaram felizes, menos o Josivaldo, que revoltado como só ele, dizia pra todo mundo que seu nome tinha um s, aquele mesmo que a mãe dele tirou. 

Voltando para onde e quando nossa história começa... Ah sim! Josisvaldo era adulto por fora, meio calvo por cima e meio largo dos lados. Tinha um emprego mais ou menos, uma casa mais pra lá do que pra cá e um sorriso de lado. Seus amigos eram escassos e esquecidos. Na casa de Josisvaldo havia um anão de jardim que sempre aparecia lá misteriosamente, mesmo depois de ser retirado, triturado, quebrado e jogado no lixo. Nada disso adiantava, pois no dia seguinte lá estava o anão de jardim, e ele se chamava Noberto. 


Apesar de tudo isso e mais um punhado de coisas, Josisvaldo era feliz. Pelo menos era até ele descobrir que não era. Então lá vamos nós! 

Um belo dia, quer dizer, em um dia nebuloso e chuvoso, numa terça-feira para ser exato, Josisvaldo acordou com a sensação de que não deveria sair debaixo do cobertor. O mundo lá fora, naquele dia em especial, parecia mais assustador e frio. Frio realmente estava fazendo, isso era verdade.

Então indo contra os próprios instintos, Josisvaldo se levantou, tomou um banho mais ou menos quente e ia sair correndo de casa, porque estava atrasado para o trabalho. Então quando foi colocar a chave apressadamente no portão, a chave quebrou na fechadura. Pronto! Mais um lindo motivo para alegrar aquela linda manhã! Ele não tinha uma chave reserva, como a maioria das pessoas têm. Então foi pegar o celular para ligar para um chaveiro 24 horas e também para avisar que iria chegar atrasado no trabalho. Então, como estava chovendo muito, e ele estava com as mãos escorregadias, deixou o celular cair e este quebrou. 

Você acha que terminou por aí? O dia estava apenas começando. Josisvaldo, tentando manter uma calma glacial, foi ao computador, tentar mandar algum e-mail para alguém que talvez pudesse ajudá-lo. Mas estava chovendo muito e vários trovões estavam castigando o céu. Um deles atingiu o poste de luz da rua de Josisvaldo e todo o bairro ficou sem energia. Ele, que era calmo, mas não era bobo, voltou a deitar, resmungando para si mesmo que deveria confiar mais em seus instintos, principalmente quando ele disser que não é para sair debaixo do cobertor. 

Josisvaldo dormiu e teve um sonho estranho. Sonhou que o seu anão de jardim (não era dele, mas como aquele bendito anão sempre aparecia lá todos os dias misteriosamente, Josisvaldo acabou se acostumando e até deu um nome para ele!) havia se transformado em um enorme dragão verde de olhos azuis e entrava em seu quarto, mexia em suas coisas, comia sua batata frita e assistia a sua série favorita "Sher locks, ele abre". E ainda por cima dormia em sua cama, tirava o seu cobertor e o empurrava até que ele caísse no chão. Até que realmente Josisvaldo caiu no chão. Realmente havia um dragão verde de olhos azuis em sua cama, coberto com o cobertor dele, comendo batata frita e assistindo aquela série famosa da CCB. 

- Mas o que é isso???
- Meu nome é Noberto. Aliás, você deveria saber disso, pois foi você quem me deu esse nome!
- Noberto, meu anão de jardim?
- Peraí, vamos com calma! Primeiro, meu nome não é Noberto, é você me chama assim. Segundo, eu não sou um anão de jardim. Bem, às vezes sim, mas às vezes sou um dragão também. Terceiro, tenho olhos azuis. Você sabe como é difícil encontrar um dragão de olhos azuis? 

Josisvaldo não estava aterrorizado, estava perplexo! Um dragão, que antes era um anão de jardim, estava em sua casa, usando as suas coisas, enquanto era para ele estar no trabalho, tendo mais um dia monótono. 

- Mas como é possível? Como...
- Você deve estar cheio de perguntas. Vou permitir que você me faça três perguntas.
Josisvaldo pensou bem, pensou bem e pensou mais um pouco. Não poderia descartar essa oportunidade com três perguntas inúteis. 
- Porque o céu é azul?
- Próxima.
- Porque as batatas fritas não são gratuitas?
- Próxima.
- Porque o ator que interpreta o Folha-man saiu do elenco na última hora?
- Vejo que fez perguntas muito pertinentes. - resmungou Noberto.
- E quais são as minhas respostas?
- Eu disse que você poderia fazer três perguntas, eu não disse que iria respondê-las. Poxa, Josivaldo, eu esperava mais de você!
- Meu nome é Josislvado! E... ah! - Josisvaldo se deixou cair na cama (depois de ter caído dela). Estava perplexo e decepcionado consigo mesmo. Não era atento e esperto o suficiente para lidar com uma criatura como aquela.
- Porque você sempre reaparece no meu jardim?
- Vejo que já estou fazendo hora extra. Hora extra aqui você paga o dobro? Porque se for...
- Noberto...
- Ok. Eu sempre reapareço no seu jardim porque eu quero, ora! Desde quando preciso ficar me explicando para um Zé-Ninguém como você?
- Um Zé-Ninguém? Você realmente acha que eu sou um Zé-Ninguém?
- Então você não é? Então me diga, o que você fez de relevante para o desenvolvimento desse planeta em que você vive?
- Ham... - a pergunta pegou Josisvaldo de surpresa.
- Então vamos facilitar um pouco. O que você fez de relevante para o desenvolvimento de seu país?
- Ham...
- De sua cidade? Sua rua? Sua casa? Ora bolas! E para você mesmo?
- Um dia desses a moça da padaria me deu cinco centavos a mais de troco e eu devolvi.
- E o que mais?
- E... eu tenho um trabalho muito bom!
- E o que você faz lá?
- Bem, eu... apago as luzes quando as pessoas saem dos aposentos. Você não acreditaria na quantidade de pessoas que saem e deixam as luzes acessas! Ainda bem! Senão estaria desempregado uma hora dessas!
- Hmm...
- Eu tenho muitos amigos.
- Sei...
- E tenho uma... namorada!
- Hahahahahah! Não me diga! - Noberto, que estava segurando as risadas não aguentou mais e uma explosão de gargalhadas quentes e fumegantes atingiu Josisvaldo, o deixando um pouco mais calvo nas partes de cima. - Então quer dizer que aquela moça de cabelos desgrenhados, e com cara de motorista de ônibus é a sua namorada?
- Não fale assim da Joaquina! Ela é muito... displicente!
- Displicente? HAHAHAHAHA! Na minha época éramos mais exigentes na escolha das fêmeas. Uma boa fêmea tinha que... ah, não importa! Você nem mesmo é um dragão!
- Não, não sou.
- Bem, JOSISVALDO com s, a moça da padaria já te deu troco errado várias vezes! E você achando que era educado não conferir o troco, pois acredita na índole da mocinha! - a cara de espanto do Josisvaldo ultrapassava todos os limites da incredulidade - E o seu emprego, nem mesmo é um emprego! "Apagar as luzes...". Eu vou até pular essa parte. Você tem muitos amigos? Quantos mesmo? Cinco? E nenhum dos cinco conseguiriam lembrar do seu aniversário sem ajuda do facebobo. E a Joaquina! Primeiro, ela não é interessante. Segundo, ela não é a sua namorada. Fim de papo. 

E como se não bastasse, Noberto mudou de ideia e continuou a falar.
- Eu te dou a oportunidade de fazer três perguntas e você me aparece com "Por que o céu é azul?"? Você já viu a cor dos meus olhos? O céu é azul porque todo mundo é míope. As batatas fritas não são gratuitas porque elas têm um custo para serem preparadas. Você não vê jornais, garoto? A inflação passou do teto da meta! E o Benedito, que iria interpretar o Folha-man saiu do elenco de última hora porque acabaram os sorvetes na Tailândia e ele foi abrir uma ONG para ajudar as crianças sofrentes que não tomam mais sorvete.
- Uau! - Isso foi o que o Josisvaldo consegui dizer, depois de uma pequena pausa. - Ah, e eu também sempre pago os meus impostos! Isso não conta para nada?
- Conta! Conta muito dinheiro. Apenas isso. Acorde, Josisvaldo. O corretor ortográfico do Word e sua mãe estavam corretos. Talvez você seja apenas um erro irritante sublinhado de vermelho, em um enorme fundo branco. 

Depois disso o Noberto continuou falando, mas Josivaldo parou de ouvir.
Por que o Word aceitava Josivaldo e não Josisvaldo? O que havia de errado?
- E o que havia de certo? - Josivaldo pensou alto.

No dia seguinte, Josivaldo chegou no trabalho e foi demitido porque teve uma falta injustificada. Joaquina terminou o namoro com ele e seus amigos continuaram como sempre: o ignorando e o procurando apenas quando precisavam de alguma coisa. 

E a vida continuou para Josivaldo. Mas tudo havia mudado, pois naquela terça-feira ele aprendeu um punhado de coisas. Aprendeu que nem sempre poderia confiar na índole das pessoas, que nem sempre é fácil lidar com as amizades. Aprendeu também a sair da inércia, a questionar coisas importantes e a ter vontade de ser e fazer algo diferente. Mas o mais importante que ele aprendeu foi que um dragão de olhos azuis realmente é algo muito raro. Será que daria para embalar Noberto, para parecer que a embalagem não foi violada e vendê-lo na VC Comics como edição de colecionador? 

Essa foi a história de Josesvaldo, quer dizer Josisvaldo, quer dizer... Ah, fala sério!

16 comentários:

  1. Que texto maravilhoso foi esse, hein? Não tô sabendo lidas hahahah, tudo escrito maravilhosamente bem! "Sair da Inércia", pois é... Vou levar essa pequena frase comigo!

    Beijos,
    Caroline Leal
    www.mostreaomundo.com.br

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  2. Nossa flor que texto incrível, como você escreve super bem.Super admiro as blogueiras que expressa seus sentimentos em forma de palavras. parabéns continue assim.
    beijos e sucesso!

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  3. E tem horas que precisamos de um choque de realidade, e este vem até mesmo no nosso dia a dia, e tem pessoas que ainda sim não se dão conta. Excelente texto,bjkas www.garotafucada.com.br

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  4. Nossa que texto grande e completo! Adorei. A mensagem que quis passar, e sua criatividade para passa-la para nós. Simplesmente original. Sem palavras rs. Continue escrevendo rs, um beijo, seguindo para acompanhar.
    Esteticando-se

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  5. Seus textos são sempre incríveis. Realmente dos blogs que visito que tem crônicas próprias, o seu está no top 3. Você sabe colocar muito bem as palavras e esse é seu diferencial. Excelente texto.
    Beijo

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    1. Olha só! Bom saber disso! haha Obrigada, Paula!

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  6. Nossa, nao é a primeira vez que eu passo por aqui e eu sempre adoro os textos que você posta. São criativos, profundos e sempre passam um tipo de mensagem que pode ser interpretada de tantos jeitos...Gosto assim, de texto que ativa o meu modo de pensar, imaginar..
    Parabens

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    1. Que bom viu, Joice, porque esta é a intenção! :D

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  7. Que texto maravilhoso! Que talento, sério. A mensagem passada e o modo que você passou foi muito uau mesmo <3 Assim como a Caroline vou levar o "sair da inércia" comigo, muito bom! Beijão

    http://querosermiranda.blogspot.com.br

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  8. Pois é muitas vezes precisamos nos deparar com situações como a do Sr. Jo (melhor chamar assim hahahaha) para que muitas coisas mudem nas nossas vidas. Vice conseguiu me prender a esse texto. Serviu para vários sentidos, e eu gostei do sentido em o que estamos fazendo para ajudar com o desenvolvimento de onde vivemos.
    Parabéns mesmo eu amei!
    Beijinhos e Sucesso!

    www.literaturaa3.blogspot.com.br

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    1. Isso mesmo, precisamos ser mais conscientes, tanto da nossa contribuição para o nosso crescimento e do social também! Obrigada!

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